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A atitude filosófica exige uma traição ao cotidiano

  • Foto do escritor: Vitor Lima
    Vitor Lima
  • há 6 dias
  • 2 min de leitura

O espelho nos devolve um rosto que aceitamos com a naturalidade de quem confere as horas. Ajustamos o colarinho, checamos se o cabelo obedece ao pente e, em segundos, damos as costas ao vidro para enfrentar o mundo. Esse é o império do bom senso: o espelho é apenas um utensílio funcional, um confirmador de aparências que serve para que não saiamos à rua com uma mancha de café na camisa. 


A atitude filosófica exige, contudo, uma traição ao cotidiano. Para o senso comum, o "eu" no espelho é óbvio. Para a filosofia, o óbvio é a primeira muralha a ser derrubada.


Peço licença para aplicar aqui a face negativa dessa atitude. Ela é o gesto de desconfiar da própria imagem. É o momento em que, em vez de apenas conferir a aparência, você interrompe o fluxo e pergunta: "Quem é este que me encara?". 


Nesse distanciamento, o espelho deixa de ser um objeto de vaidade para se tornar um problema ontológico. 


A atitude negativa é um "não" ao automatismo. É recusar o conforto de saber quem se é apenas porque o RG assim o diz. É olhar para a própria pupila e perceber que não existe nada de óbvio no fato de estarmos vivos e conscientes de nossa própria imagem.


Contudo, não podemos morar apenas na desconfiança. Após a interrupção, emerge a atitude positiva. Se a negativa suspende o fluxo, a positiva inicia uma nova estratégia de investigação. Não é mais sobre "como estou?", mas sobre "o que é a identidade?". "Por que este reflexo me pertence?". "Como a luz e a memória se organizam para que eu reconheça este conjunto de traços como 'eu'?". 


Investigar a questão é buscar justificações que o senso comum, em sua pressa utilitária, jamais teria tempo de articular.


O distanciamento filosófico é esse passo atrás que nos permite ver a moldura e não apenas o quadro. É transformar o ato mecânico de se preparar para o trabalho em uma meditação sobre a Realidade e a Beleza. Afinal, ao perguntar "O que é o belo?" diante do reflexo, você já não está mais preocupado se o seu rosto agrada aos outros, mas sim com o fundamento daquilo que atrai o olhar humano.


Cultivar a atitude filosófica não nos impede de sair de casa, mas nos faz sair de uma maneira diferente. O homem do senso comum sai do banheiro com a gravata alinhada. O filósofo sai com a alma em estado de pergunta.


Ao voltarmos as costas para o espelho, o fluxo da vida recomeça, mas agora ele é um fluxo examinado. O segredo da vida boa talvez seja este: não permitir que a rotina nos cegue para o espanto de sermos quem somos. 


O espelho, esse objeto trivial de vidro e prata, é na verdade um convite diário para que deixemos de ser apenas transeuntes da própria existência e passemos a ser seus investigadores.


"A Reprodução Proibida" (La reproduction interdite), 1937, de René Magritte.
"A Reprodução Proibida" (La reproduction interdite), 1937, de René Magritte.

 
 
 

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