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O horóscopo fala a verdade. Se você desconfia, problema seu

  • Foto do escritor: Vitor Lima
    Vitor Lima
  • há 9 horas
  • 3 min de leitura

O título é uma provocação, eu sei. Soa como o dogmatismo de um místico ou a teimosia de quem se recusa a ver o óbvio. Mas peço um instante de sua atenção antes que me acuse de heresia racionalista. O horóscopo fala a verdade. E se você desconfia, é porque talvez esteja procurando a verdade de apenas uma perspectiva, com as ferramentas trocadas.


Explico-me. Vivemos sob a ditadura do dado estatístico, onde algo só é "verdade" se puder ser pesado, medido e replicado em laboratório. É a vitória do Logos técnico sobre a alma humana. Mas observe a cena: você abre o jornal e lê que "Saturno em Peixes pede introspecção". O cético ri, o cientista desdenha, mas o sujeito que lê aquela frase sente um estalo. Naquele instante, a narrativa mítica (o mythos) tocou uma corda que a frieza de um gráfico de Excel jamais alcançaria.


A verdade do horóscopo não é factual, é simbólica. Ele não prevê que um piano cairá na sua cabeça às 14h03. Oferece uma lente para enxergar o invisível. Quando os gregos antigos falavam de deuses, eles estavam nomeando forças que nos habitam. Afrodite é o desejo que nos tira o sono. Ares é a fúria que nos sobe à cabeça na fila do banco. O mito é uma anatomia do espírito. Portanto, dizer que o horóscopo "fala a verdade" é admitir que a vida humana não é apenas biologia, mas semiótica. É reconhecer que precisamos de símbolos para traduzir o caos da existência.


Aqui, a Epoché se faz necessária. Suspenda por um momento a sua descrença. Se a Filosofia nasceu como uma tentativa de organizar o mundo, ela nunca o fez matando o mito, mas sim dando-lhe uma estrutura. Os primeiros pensadores não eram ateus, como eu mesmo me considero. Eram investigadores do Ser. Eles entendiam que a genealogia das coisas, a forma como o mundo é gerado e narrado, é a base de toda sabedoria. A mitologia nos salva do medo do vazio, oferecendo um mapa para a "vida boa" sem as muletas de promessas religiosas de um além-túmulo.


O horóscopo é verdadeiro neste sentido pragmático estrito: é útil para a alma. Ele é uma areté, uma busca por excelência que começa pelo autoconhecimento, ainda que mediado pelas estrelas. Se você insiste em dizer que é tudo "mentira" porque os planetas não emitem ondas de personalidade, você está cometendo um erro de categoria. É como criticar uma poesia por não ser um argumento. Você está perdendo a chance de saborear a narrativa que conecta o seu pequeno drama cotidiano ao movimento das esferas.


O horóscopo fala a verdade no sentido em que nos obriga a parar e refletir sobre quem somos. De modo simbólico, não factual. Se você prefere o deserto do puro acaso, onde nada significa nada e somos apenas poeira aleatória, o problema é, de fato, seu. Eu prefiro a companhia dos deuses, ainda que eu saiba que eles são um fenômeno psicológico. Mas dizer “fenômeno psicológico” não é o mesmo que dizer “ilusão”, como defendia Carl Jung.


O que é psíquico é real. Se uma “ilusão” molda o seu comportamento e governa seus medos, como ousamos chamá-la de inexistente? Se tem efeitos empíricos, então é real e é passível de investigação igualmente empírica, como defendia William James.


Realidade não se resume à subjetividade, de um lado, e objetividade, de outro. Existe a realidade intersubjetiva, aquela que é partilhada por sujeitos, mas que não depende de um único sujeito. Nesse sentido, tem existência independente daquilo que apenas um indivíduo pensa, embora esteja vinculada ao pensamento coletivo. Por isso, não pode ser restrita ao delírio puro.


Somos seres racionais que precisam de lógica para construir pontes, mas somos também seres míticos que precisam de histórias para atravessá-las. 


A verdade também reside naquilo que nos organiza internamente. Se o horóscopo diz algo que faz agir com mais prudência e coragem, então opera uma transformação real. 


A psicologia, talvez, seja apenas o nome moderno que damos à nossa eterna conversa com o sagrado.


Salvador Dalí (1904-1989) The Twelve Signs of the Zodiac (Field 67-6), 1967
Salvador Dalí (1904-1989) - The Twelve Signs of the Zodiac (Field 67-6), 1967

 
 
 

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