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Somos o próprio espanto do universo se olhando no espelho

  • Foto do escritor: Vitor Lima
    Vitor Lima
  • há 21 horas
  • 2 min de leitura

O quarto está na penumbra, o hálito de uma criança pequena é o único metrônomo do silêncio e eu, segurando um livro ou apenas resgatando memórias, conto uma história para que o meu filho, Ulisses, possa finalmente fechar os olhos. Há algo de profundamente arcaico nesse gesto. O que há aqui, nesta cena, que é irredutivelmente humano? O que faz de Ulisses, de mim e deste instante algo que não poderia ser outra coisa?


Buscamos a essência. No sentido clássico, a essência é o "o que é x?". 


Se perguntássemos a Sócrates, no meio de uma praça barulhenta, "o que é o ser humano?", ele provavelmente não aceitaria como resposta "é este pai que conta histórias". Ele diria que isso é apenas um exemplo, uma impressão passageira. Ele buscaria o atributo que, se retirado, faria a humanidade desmoronar. 


Aristóteles, sentado à nossa mesa imaginária, chamaria isso de substância. Ele olharia para o pequeno Ulisses e tentaria separar o que é acidental do que é essencial. O pijama azul? Acidental. O sono que chega? Acidental. O fato de ser um "animal racional" ou um "animal político"? Aqui as águas tornam-se profundas.


Para que algo seja essencial, na ontologia aristotélica, precisa ser necessário e suficiente. Sem esse atributo, o ser humano não existe. Com esse atributo, ele sempre existirá. Mas quando olho para o meu filho, percebo que a nossa essência parece morar em uma categoria negligenciada: a capacidade de narrar e de se reconhecer na narrativa.


Será que a racionalidade, enquanto busca do universal e do necessário, é suficiente para definir o humano? Se um robô pudesse ler para Ulisses com a mesma entonação e precisão técnica, a essência do encontro estaria lá? Creio que não. A essência humana parece exigir essa carne que sofre, que lembra e que, sobretudo, busca um sentido que a biologia não explica. Para a tradição cristã medieval, que herdou o mestre de Estagira, essa essência é a alma imortal, o sopro divino que nos torna singulares.


Talvez a essência humana não seja um dado estático, mas uma conquista que se renova a cada "era uma vez". Somos seres que precisam de condições necessárias, como a senciência e a razão, mas que só se tornam suficientes quando exercem a sua liberdade de dar nome ao mundo.


Ao contar uma história para o Ulisses, não estou apenas cumprindo uma função biológica de indução ao sono. Estou transmitindo a ele a substância da nossa espécie: a herança de que o mundo não é apenas um amontoado de átomos, mas uma teia de significados. A essência humana é essa estranha necessidade de encontrar ordem no caos, seja mediante a lógica de Aristóteles, seja por meio de um romance de formação. Sem isso, somos apenas poeira, como queria Carl Sagan, de quem discordo frontalmente. 


Somos o próprio espanto do universo se olhando no espelho.


Fig. 4 Aertgen van Leyden, São Jerônimo em seu Estudo à Luz de Velas, ca. 1520, óleo sobre painel, 48 x 37,7 cm. Amsterdã, Rijksmuseum, inv. S-A-3903 (obra em domínio público).
Fig. 4 Aertgen van Leyden, São Jerônimo em seu Estudo à Luz de Velas, ca. 1520, óleo sobre painel, 48 x 37,7 cm. Amsterdã, Rijksmuseum, inv. S-A-3903 (obra em domínio público).

 
 
 

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