As mães escrevem certo por linhas tortas
- Vitor Lima

- 6 de mai.
- 2 min de leitura
Quando decidi fazer Filosofia, minha mãe não me apoiou. E, sob a ótica da prudência, a phronesis aristotélica que nos ensina a julgar o futuro pelo lastro do passado, ela tinha toda a razão do mundo.
O meu histórico era o do menino que abandonava o campo: a escolinha de futebol frequentada na infância, o palco do teatro já aprendido na adolescência e, por fim, a segurança litúrgica do Direito, meu primeiro curso universitário, abandonado no 6º período.
Para quem decide confiar em alguém, a constância das ações é um critério razoável. E eu era tudo, menos constante nos projetos que decidia fazer. Por que a Faculdade de Filosofia seria diferente de um drible mal dado, um roteiro esquecido e um vade mecum abandonado na estante?
Para nascer como filósofo, precisei exercer o que os gregos chamavam de anachoresis — a retirada, o afastamento. Mudar de Manaus para o Rio de Janeiro foi uma necessidade fenomenológica. Eu precisava mudar o horizonte visual para conseguir mudar a paisagem interna. Às vezes, o ambiente em que crescemos torna-se viciado em nossas falhas. Ele nos olha e só enxerga quem fomos, impedindo-nos de ser quem estamos tentando nos tornar.
Minha mãe se opôs porque me amava dentro do que ela conhecia de mim. O amor materno, em sua face mais crua, é autopreservação. Ela queria me poupar de mais uma frustração. Só que eu precisava me expor ao risco da concretude.
Mudar de ambiente é um processo doloroso, uma epoché física — uma suspensão de tudo o que nos é familiar. É o desconforto de não pertencer a lugar algum para, finalmente, pertencer a si mesmo.
Não escrevo isso para sugerir que a solução de todo dilema existencial seja uma passagem de avião, mas para asseverar que o propósito não é algo que se encontra sentado na poltrona assistindo a uma playlist do YouTube.
O futuro, essa abstração que nos assombra, só se torna destino quando tomamos as rédeas da nossa própria finitude. O apoio alheio, mesmo vindo da própria mãe, é um luxo.
Olho para trás e vejo um filho que precisou do silêncio do apoio materno para escutar a própria voz.
Hoje, o Dia das Mães me lembra que a maior homenagem que podemos prestar àquela que nos deu a vida é, precisamente, não desperdiçá-la no medo de errar novamente. E honrar tudo o que ela nos fez, mesmo que contraintuitivo.
As mães escrevem certo por linhas tortas.




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