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Você não é um herói numa jornada

  • Foto do escritor: Vitor Lima
    Vitor Lima
  • há 11 minutos
  • 3 min de leitura

Há um prazer clandestino em abrir um livro antigo. Antes mesmo que a primeira frase nos alcance, somos assaltados por aquele aroma característico — uma mistura de baunilha, mofo e poeira — que os químicos chamam de degradação da celulose, mas que o espírito reconhece como o cheiro do tempo. Ao folhear as páginas amareladas, sentimos a textura irregular, o peso do volume nas mãos e a resistência física de uma história que não se apaga com um scroll.


Contrastemos essa cena com o brilho asséptico do celular. No vidro frio, a vida nos é vendida como um algoritmo de eficiência. Ali, não há tempo acumulado, apenas o "agora" urgente que nos empurra para a próxima meta. Tudo isso para capturar o nosso maior ativo: a atenção.


Atenção para ser vendida a anunciantes. E do anúncio do curso de programação ao comercial do tênis de corrida, a cartilha é a mesma: a onipresente Jornada do herói, popularizada por Joseph Campbell e mastigada por Christopher Vogler para o uso industrial de Hollywood e do marketing.


Nessa estrutura, somos convencidos de que a vida é uma linha (ou um círculo heróico) composta por etapas previsíveis: o chamado, a travessia, o clímax e o retorno triunfal. 


O problema é que, ao transformarmos a existência em um "projeto de jornada", transformamos a nós mesmos em produtos com prazo de entrega. 


A ansiedade que nos corrói não é um defeito de fábrica, mas o resultado inevitável de tentar viver a vida como se ela fosse um roteiro de videogame, onde cada fase deve ser vencida para que o "eu" finalmente se sinta completo.


Invoquemos à mesa o melancólico Søren Kierkegaard. Ele nos lembrava, com sua ironia, que a vida só pode ser compreendida para trás, embora tenha de ser vivida para frente. Ao aceitarmos a Jornada do Herói como modelo, tentamos inverter a lógica de Kierkegaard: queremos compreender a vida antes de vivê-la, mapeando o futuro com uma previsibilidade que a realidade insiste em desmentir.


É aqui que o professor Pedro Sette-Câmara nos oferece uma saída elegante através do conceito de Romance de Formação (Bildungsroman). Pense em Wilhelm Meister de Goethe ou no nosso Dom Casmurro. Ao contrário da jornada heróica, o romance de formação não se preocupa com metas batidas, mas com a ruminagem da experiência.


No romance de formação, o sentido não está no troféu, mas na maneira como as ambiguidades, os erros e os encontros inesperados vão moldando a alma do narrador. É uma perspectiva que acolhe o imprevisto. Enquanto a "jornada" nos torna ansiosos por um futuro que nunca chega, a "formação" nos convida a observar como o passado nos esculpiu.


Não se trata de abandonar o planejamento. Areté (excelência) exige ordem. Mas é preciso mudar o condicionamento do nosso olhar. A Filosofia, como bem sabemos, não é um curso com certificado de conclusão que se pendura na parede após "vencer as etapas". Ela é, como o cheiro daquele livro antigo, algo que se impregna em nós lentamente.


A vida não é um manual de instruções de um roteirista de Los Angeles. Ela é mais parecida com a escrita de Machado de Assis: cheia de digressões, de dúvidas sobre o que o outro pensa e de uma beleza que só se revela quando paramos de correr em direção ao fim do capítulo.


Ao fechar o livro antigo e sentir o seu aroma, percebemos que a formação humana não tem pressa. Ela é o acúmulo das marcas que o tempo deixa em nós. Talvez, se trocarmos a obsessão pelo "próximo nível" pela atenção ao parágrafo que estamos escrevendo agora, a ansiedade finalmente nos dê uma trégua.


Antonello da Messina, Saint Jerome in his Study
Antonello da Messina, Saint Jerome in his Study, about 1475, The National Gallery, Trafalgar Square, London

 
 
 

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