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O que o tatame ensina sobre metafísica

  • Foto do escritor: Vitor Lima
    Vitor Lima
  • há 15 horas
  • 2 min de leitura

O corpo pesa. Há uma gravidade específica que só se manifesta após uma hora de rola no tatame, quando o quimono, antes branquinho, agora é um fardo sujo e encharcado de esforço alheio e próprio. Sentado no banco do vestiário, sinto o latejo nos dedos e a respiração que, aos poucos, deixa de ser um animal acuado para retomar sua cadência. É um cansaço que carrega uma pergunta cuja resposta não é óbvia: por que amanhã eu desejarei, com uma sede quase irracional, submeter-me a isso novamente?


O "vício" pelo desconforto — seja ele o estrangulamento técnico no jiu-jitsu ou o nó górdio de um parágrafo de Heidegger — nasce de uma mesma fonte: a descoberta de que a sensação de confusão ao tentar entender algo não é um problema. É parte essencial do processo de aprendizado.


Estudar é um esporte de contato.


Muitos desistem da Filosofia como o iniciante que olha para o mar e, por não avistar o fundo, recusa-se a molhar os pés. O erro do novato é acreditar que deve atingir o leito marinho no primeiro mergulho. Mas se o mergulhador insiste em descer além de sua capacidade pulmonar sem preparo, o que encontra não é a sabedoria, mas a asfixia. A arte está em mergulhar até onde o peito aguenta, saborear o azul escuro da dúvida e retornar à superfície para retomar o ar. Com o tempo, o pulmão dilata. 


No tatame, houve um tempo em que fui um orgulhoso faixa-branca. Minha única missão técnica, naquele contexto, era sobreviver. No jiu-jitsu, "passar o carro" é o que os graduados fazem com quem ainda não entende as alavancas do corpo. Na biblioteca, Kant muitas vezes "passa o carro" sobre nós. A tentação é fechar o livro e declarar-se "de exatas" ou "incapaz". Mas a Filosofia, assim como a luta, exige a aceitação da própria doxa — essa opinião rasa e desajeitada — para que possamos trocá-la, centavo a centavo, pela episteme, o conhecimento.


O mundo contemporâneo, viciado no imediatismo, esqueceu a beleza do rendimento lento de um investimento que dá retorno, mas a médio e longo prazos. Ler cinco páginas difíceis hoje parece não mudar nada. No final do ano, porém, o vocabulário se expande. Em dez anos, os padrões do mundo se revelam. De repente, você não é mais enganado pelo charlatão que viralizou no Instagram, porque você já conhece o peso real de cada conceito. Você acumulou um patrimônio existencial que ninguém pode tributar.


A confusão não é um erro de percurso, ela é o próprio percurso. Se você saiu de uma aula de Filosofia entendendo tudo, você não estudou filosofia; você apenas consumiu entretenimento intelectual. O verdadeiro aprendizado deixa marcas, como o roxo no braço ou a dor muscular pós-treino.


Não busco “entender o assunto”, mas a capacidade de articular minha própria confusão. Articular a dúvida já é oitenta por cento do caminho para a clareza. O meu conselho, portanto, é que você, ao se deparar com um texto que lhe pareça intransponível, não recue. Parafraseando  Samuel Beckett: erre, erre de novo, erre melhor. 



 
 
 

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