Os óculos que não tiramos
- Vitor Lima

- há 7 horas
- 4 min de leitura
Existe um clichê que se repete há séculos, de Platão a podcasts de autoajuda: a ideia de que filosofar é "tirar os óculos" que distorcem nossa visão e, finalmente, enxergar a realidade "como ela realmente é". É uma promessa sedutora. Quase mágica. Se você conseguisse arrancar essas lentes enganosas — seus preconceitos, sua educação, sua cultura, seus traumas — alcançaria uma visão pura, neutra, objetiva. Teria, quase, superpoderes.
Mas aqui vai a má notícia: isso é impossível.
E aqui vai a boa notícia: isso não importa.
Porque filosofar não é despir-se das lentes que usamos para ver o mundo. Filosofar, do modo como proponho, é justamente o contrário: é adicionar mais lentes. É colocar óculos novos, experimentar outras perspectivas, alargar o repertório de modos de ver. Não se trata de alcançar uma visão neutra da realidade — algo que, aliás, não faz sentido. Trata-se de enriquecer a experiência que temos dela.
Deixa eu explicar melhor.
A ideia de que existe uma "realidade como ela é", acessível a quem conseguir se livrar de todos os filtros, pressupõe algo estranho: que você pode sair de si mesmo. Que é possível abandonar sua própria história, sua linguagem, seu corpo, suas categorias mentais — tudo que faz de você você — e olhar o mundo de um ponto de vista absoluto, de lugar nenhum.
Mas nós não somos observadores flutuantes no vazio. Somos corpos situados no tempo e no espaço. Temos uma língua materna que molda como pensamos. Temos memórias que dão cor ao que vemos. Temos experiências que condicionam o que imaginamos. Não existe "ver sem óculos". Sempre estamos vendo através de algo.
E isso não é um defeito. É a condição humana.
O problema não é ter lentes. O problema é ter poucas lentes. O problema é achar que os óculos que você herdou — da sua família, da sua classe social, da sua época, da sua bolha — são os únicos possíveis. O problema é confundir "o jeito que eu vejo" com "o jeito que as coisas são".
Filosofar, então, não é arrancar os óculos. É acumular mais pares. É experimentar olhar o mundo pelos olhos de Platão, de Nietzsche, de Simone de Beauvoir, de um pescador de Itatiaia, de uma criança de dois anos e meio, de alguém que viveu há três mil anos, de alguém que vive do outro lado do planeta. Não para "finalmente ver a verdade", mas para alargar o modo como a realidade se apresenta a você.
Chamo isso de alargamento de pensamento.
A questão não é enxergar ou não a realidade.
A questão é enxergar a realidade de modo escasso ou de modo abundante. Com poucos recursos interpretativos ou com um repertório amplo. De maneira pobre ou de maneira rica.
Quem vê o mundo apenas por uma lente — a do senso comum, a da ideologia em que está imerso, a da bolha em que vive — vê pouco. Vê sempre a mesma coisa. Perde nuances. Não percebe conexões. Fica cego para o que não cabe no enquadramento estreito que conhece.
Mas quem coleciona lentes — quem lê, quem conversa, quem viaja (mesmo que só pelos livros), quem se permite duvidar do óbvio, quem experimenta modos de vida diferentes do seu — esse vê mais. Não vê "a verdade absoluta". Vê camadas. Vê tensões. Vê o que antes era invisível.
Pensa assim: você está olhando para uma árvore. Se você só tem as categorias "bonita" ou "feia", "útil" ou "inútil", vai ver uma coisa. Se você aprende botânica, passa a ver espécies, ciclos de vida, relações ecológicas. Se você lê poesia, passa a ver alegorias, metáforas, beleza formal. Se você estuda história, passa a ver o que aquela árvore testemunhou, quantas gerações passaram por ela. Se você ouve alguém de outra cultura, descobre que aquela árvore é sagrada, ou maldita, ou medicinal.
A árvore não mudou. Você mudou. Ou melhor: você alargou. Agora você tem mais modos de se relacionar com ela. Mais formas de percebê-la. Mais riqueza interpretativa.
Isso é filosofar.
Não é despir-se das próprias categorias mentais — como se isso fosse possível. É multiplicá-las. É recusar a pobreza interpretativa. É se negar a ver o mundo sempre do mesmo jeito, pelo mesmo ângulo, com os mesmos pressupostos.
E isso exige esforço. Porque é tentador vestir as lentes preferidas. É cansativo colocar óculos novos, ainda mais quando nos mostram coisas que não queremos ver ou que desafiam o que achávamos óbvio. É perturbador descobrir que aquilo que chamávamos de "a realidade" era apenas um jeito — entre muitos — de recortá-la.
Mas é aí que mora a liberdade. Porque quem só tem um par de óculos é escravo deles. Não sabe que está vendo através de uma lente. Acha que está vendo a coisa mesma. Já quem tem vários pares sabe que está sempre interpretando. E quem sabe que interpreta pode escolher — ou pelo menos tentar escolher — como interpretar.
Esse alargamento não tem fim. Sempre é possível adicionar mais uma lente, mais uma perspectiva, mais um modo de ver. E quanto mais você alarga, mais percebe o quanto ainda há para alargar.
Então, não. Filosofar não é ver a realidade "como ela é". Filosofar é ver a realidade para além do que como se apresenta no cotidiano. É perceber as conexões que não são óbvias. É estranhar o familiar. É multiplicar os modos de olhar.
E quanto mais você olha de jeitos diferentes, mais a realidade se revela — não como uma verdade única e cristalina, mas como um prisma de sentidos possíveis e ainda não imaginados.




boa note.
Perguntaram a um pensador:
Qual a melhor coisa que poderia ocorrer com a nossa espécie?
Resposta:
A melhor coisa que poderia ocorrer, não mais pode acontecer. A melhor coisa para o resto da biosera era não ter surgido com espécie.
Mas, tem uma segunda coisa que deveria ocorrer!
É ele sumir logo!
Meu comentário.
algumas vezes concordo que a espécie humana deveria não ter surgido, ou então, sumir logo.
Outras vezes discordo do desaparecimeto da nossa espécie.
Ao ler o texto, tenho convicçao que a nossa espécie valeu a pena ter surgido. parabens!
O mesmo quando ouço musica de Bach.
Portanto, vale a pena insistir.
Texto maravilhoso, mostra a riqueza dos pontos de vista! O único ponto a ser discutido é o referente à objetividade, ou seja, a questão da realidade mesma. Se tudo gira em torno das diferentes lentes, o problema é interpretar o conhecimento científico, visto que ele se endereça para a certeza da verdade. Do ponto de vista das ciências humanas, o texto tem bastante procedência. Mas do ponto de vista das ciências da natureza, a questão fica mais obscura. Para se construir um avião, um foguete ou um computador, parece que diferentes pontos de vista se encaminham para um mesmo resultado, seja aqui, na Europa ou na China. Neste caso, devemos tirar os óculos para enxergar a realidade como ela é…