O cafezinho de Ariano Suassuna
- Vitor Lima

- há 1 dia
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Ariano Suassuna, em uma dessas entrevistas memoráveis com Jô Soares, contou uma história aparentemente trivial, mas que carrega uma profundidade filosófica impressionante. Disse o escritor paraibano que tomou café durante décadas — não por prazer, mas "por falta de personalidade". Todo mundo repetia que brasileiro gostava de café, e ele tomava. Se queimava todo, achava azedo, mas continuava tomando. Até que, aos 57 anos, uma epifania tardia: ele decidiu que não gostava de cafezinho. E parou.
A anedota é cômica, quase constrangedora. Como alguém pode passar mais de meio século tomando algo que detesta? Mas antes de rir de Ariano, seria mais honesto nos perguntarmos: quantos cafezinhos estamos tomando agora mesmo?
Não falo apenas da bebida. Falo das opiniões que repetimos sem examinar. Das carreiras que seguimos porque "é o que se faz". Dos gostos que fingimos ter porque "todo mundo gosta". Das crenças que herdamos e nunca interrogamos. Dos relacionamentos que mantemos por inércia. Das vidas que vivemos como se fossem nossas, quando são apenas cópias malfeitas de vidas alheias.
Sócrates, lá na Atenas antiga, incomodava as pessoas com uma pergunta simples: "Por que você acredita nisso?". Não era uma pergunta retórica. Era um convite — ou melhor, uma provocação — para que as pessoas examinassem suas próprias vidas. A maioria não gostava do convite. Preferiam continuar tomando seus cafezinhos metafóricos, queimando a língua, achando azedo, mas repetindo o gesto porque "é isso que se faz".
O filósofo não oferecia respostas prontas. Oferecia algo muito mais perturbador: a suspensão do juízo. Aquilo que em Filosofia chamamos de epoché — o gesto cético de parar o julgamento automático e perguntar: "Será mesmo? De onde vem essa ideia? Ela é minha ou apenas entrou em mim sem pedir licença?".
Esse é o segundo ato do drama filosófico. O primeiro, o thaumázein, é o espanto — aquele momento em que algo nos tira do piloto automático e nos faz perceber: "Espera aí, isso não faz sentido". Ariano teve esse momento aos 57 anos. Alguns nunca o têm. Passam a vida inteira queimando a língua, convencidos de que gostam de café porque brasileiro gosta de café.
Mas o thaumázein, sozinho, não basta. Podemos nos espantar e, no segundo seguinte, voltar ao automático. É preciso investigar. É preciso ter coragem — e eu uso essa palavra conscientemente — de suspender o óbvio e perguntar: "E se eu estiver errado? E se isso que sempre pensei não for verdade?".
Essa coragem é rara. Porque questionar o óbvio é questionar a si mesmo. É admitir que, talvez, grande parte do que acreditamos ser nossa identidade seja, na verdade, um amontoado de cafezinhos que tomamos porque nos disseram para tomar. E isso dói. Dói muito.
Nietzsche dizia que a maioria das pessoas não quer a verdade; quer conforto. Querem continuar dormindo. E o filósofo — esse personagem inconveniente — é aquele que sacode o ombro do outro e diz: "Acorda. Você está sonhando a vida de outra pessoa".
Ariano acordou aos 57. Mas podia ter acordado aos 67, ou aos 77. Ou nunca ter acordado. A idade não importa. O que importa é o gesto: parar, olhar para o que está na nossa mão — seja um cafezinho, uma crença, um projeto de vida — e perguntar com sinceridade brutal: "Isso é meu? Ou é só o que colocaram aqui?".
Esse gesto simples — mas devastador — é o que separa quem pensa de quem apenas repete. E a maioria, infelizmente, apenas repete. Repete opiniões de jornal, bordões de internet, chavões de autoajuda, dogmas de família, preconceitos de época. Repete porque é mais fácil. Porque pensar de verdade exige parar a roda-viva e olhar para dentro. E lá dentro pode estar bagunçado. Pode estar cheio de contradições. Pode estar vazio.
Filosofar, nesse sentido, é um ato de coragem existencial. Não é apenas um exercício intelectual de gente entediada. É a recusa em viver no automático. É a insistência em examinar, questionar, duvidar — mesmo quando duvidar dói, mesmo quando as respostas que encontramos não são as que queríamos ouvir.
E depois do espanto e da investigação, vem o terceiro ato: a Aufhebung, a palavra alemã que quer dizer ao mesmo tempo negar, conservar e elevar. Não é um retorno ingênuo ao ponto de partida. É uma reconciliação consciente. Ariano não voltou a tomar café. Mas agora ele sabia que não gostava. E essa diferença — entre fazer algo inconscientemente e fazer algo (ou não fazer) conscientemente — é abissal.
Não há garantias de que você vai gostar daquilo que descobrir sobre si mesmo. Mas há, sim, uma garantia restante: você vai saber. E saber — mesmo que doa — é melhor que repetir. Porque repetir é viver a vida de outra pessoa. E saber, ainda que amargo, é finalmente viver a sua.




Que texto fantástico, é uma sacudida necessária!
Que texto lindo! Uma reflexão mt boa para quem está mergulhando agora nesse mundo novo que é a filosofia, parabéns!