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Barriga com barriga

  • Foto do escritor: Vitor Lima
    Vitor Lima
  • 17 de jul. de 2025
  • 2 min de leitura

É de madrugada. Ao meu lado, jaz um corpo — minha esposa, Evelyn, após um dia inteiro de amamentação. Dorme como se tivesse se livrado do cativeiro. Mesmo os fortes precisam descansar. 


Os frágeis também. Entre nós dois, deitado, está nosso filho, Ulisses. Com apenas 11 dias de vida. Todo ele é grunhidos, suspiros, berros e espasmos. 


Acaba de soltar alguns agora. Evelyn arregala os olhos como se Moscou e Pequim acabassem de ter disparado mísseis contra Washington.


— Esta tudo bem — eu digo — pode deixar que eu estou olhando.


Ela, ainda em transe, fecha os olhos, e sua cabeça despenca no colchão, como queda d’água.


A sequência de espasmos desembocará num toque de berrante que convocará uma boiada voraz, caso alguém não o segure no colo agora. 


Não é fome. Ele já mamou. É só necessidade de aconchego.


Estamos na tentativa de que durma fora de nossos braços desde a maternidade. Na primeira noite conosco, só conseguiu agarrado.


Depois que o primeiro sono o captura, conseguimos colocá-lo na cama, rodeado por um macarrão feito de uma manta especial. Mas só durante um quarto de hora. Em seguida, dispara uma sequência de sons — tudo começa com duas inspirações rápidas, seguidas de uma exalação longa — que carimba sua insatisfação em nossas testas.


Já sei que é hora. Retiro-o da cama e coloco-o sobre meu peito. Mas Ulisses é tão pequeno que, diante de mim, vira pedrinha miudinha sobre um grande lajedo. Rapidamente, vai escorregando, de modo que sua cabeça repousa no início de minha costela.


Aqui ele se aquieta. Aqui não há mais reclamações. Aqui sua respiração volta a ser suavemente ritmada.


Olho para baixo, e esta imagem é a metonímia da função paterna. Meu filho está de bruços, com a cabeça virada para o lado e com bracinhos contraídos. Minha mão, sobre suas costas, ao mesmo tempo o segura e o afaga. 


Já não é mais necessário refletir sobre os mistérios de como criar um ser humano, sobre como será o mundo que o receberá. Instantaneamente sei o que fazer. 


Afinal o que faz um pai? 


Um pai protege. 


E tudo começa aqui: barriga com barriga.

Mão feminina segurando a mão de um bebê

 
 
 

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