Citanite
- Vitor Lima

- 17 de jul. de 2025
- 3 min de leitura
Você que me lê. É. Você. Você estuda Filosofia. Se me lê, é porque estuda. Talvez, a sua linha narrativa até chegar a um Professor de Filosofia tenha sido mais ou menos assim como desenharei a seguir.
Para os efeitos de meu argumento, digamos que você se interessou por política. Consumindo conteúdos aqui e ali, descobriu que precisaria conhecer os filósofos. Experimentando os pensadores, percebeu que necessitaria beber direto da fonte: em seus livros. Encontrando-lhes os textos, deu-se conta de que não sabia nada.
É demais, eu sei. Nem Sócrates dizia que nada sabia. Se você acredita no contrário, caiu numa das mentiras mais bem sucedidas do Ocidente: a do tal “só sei que nada sei” atribuído à mosca de Atenas.
Voltando ao seu caso, é exatamente essa a sensação, não é? Quando você lê um livro que não consegue decifrar? Parece que, naquele campo, voltou a ser analfabeto.
Apesar da situação parecer humilhante, eis é a origem da postura filosófica: o thaumázein, a sensação de inquietude diante daquilo que, apesar de parecer familiar, nos escapa da compreensão. Alguns traduzem a palavra grega para “espanto”, outros para “maravilhamento”, há quem use “estranhamento”. Eu, por meu turno, prefiro “abertura”.
Abrir-se para a não familiaridade é a atitude aparentemente mais intuitiva que há. Abundam expressões do tipo “Eu sou mente aberta”, “Eu me abro a novas experiências”, “Eu me orgulho de não tratar ninguém de modo diferente”. É o que os estadunidenses chamam de virtue signaling (“sinalização de virtude”): repetir meia dúzia de expressões linguísticas facilmente reconhecidas por um grupo, como símbolos de que abraça um conjunto de valores dessa coletividade.
A Filosofia também tem suas sinalizações de virtude, que se tornam ridículos clichês. Fora o dizer que é “mente aberta” existem as poses filosóficas. Olhar para o horizonte como quem pensa coisas profundas. Colocar a mão no queixo e olhar obliquamente para cima, para indicar reflexão. Assumir uma postura pessimista para sinalizar que vê a “vida como ela é”. Esqueci-me de alguma?
Ah, sim, ainda tem esta aqui: citar o máximo de livros, autores e termos técnicos, à medida que fala de coisas simples. Essa postura é clássica, não é?
Faz-me lembrar de uma caloura na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), onde me formei. Obviamente, não mencionarei seu nome, nem preciso. Basta dizer seu apelido: Citanite.
O sufixo “-ite” denota inflamação, como em bronquite (relativa aos brônquios, os tubos que levam o ar para os pulmões), conjuntivite (relacionada à conjuntiva, membrana fina e transparente que cobre a parte branca dos olhos e o interior das pálpebras) e apendicite (que diz respeito ao apêndice, pequena bolsa em formato de tubo no intestino grosso).
O “n” que completa o “-ite” vem do filósofo alemão, que, em Língua Portuguesa, geralmente se pronuncia assim mesmo: nite.
O “cita” vem do verbo “citar”, que é mencionar nas próprias palavras do autor o que ele disse.
Após essa análise, você já sintetizou mentalmente o significado. Quando a chamávamos assim, queríamos dizer que a paixão pelo filósofo extrapolara a afinidade: descambara para a patologia. Em qualquer ocasião, fazia questão de citar o bigodudo. Estávamos bebendo? Citanite. Estávamos conversando sobre as provas? Citanite. Estávamos revoltados com a política no país? Pois é.
Virou uma inflamação mental.
Fica evidente o absurdo. Se essa prática for representativa de o que significa estudar Filosofia, então não vamos nada bem. Precisamos de um Ibuprofeno já.
Claro está que, de um lado, estudar Filosofia requer ir em direção aos conceitos e, de outro, requer voltar à realidade de posse desses conceitos. Tal movimento, porém, não pode ser mecânico, como numa aplicação de um silogismo aristotélico.
A premissa maior é a teoria filosófica. (Todo homem é mortal)
A premissa menor é a vida. (Sócrates é homem)
A conclusão é que a teoria filosófica explica a vida. (Sócrates é mortal)
Se as coisas fossem tão automáticas assim, não precisaríamos jamais… Veja só você… Pensar. Isso ocorre porque o pensamento é justamente a capacidade humana de lidar com o imprevisto, o não programado, aquilo que escapa a fórmulas.
Seja qual for o significado de estudar Filosofia, podemos desde já retirar um dos candidatos à resposta: certamente não significa aplicar, sem mediações, um pensamento cristalizado de algum autor canônico a uma situação concreta.
“E como fazer essas mediações, Vitor? Me dá um passo a passo?”, talvez alguém aí rogue de joelhos.
“Bom”, eu respondo, “se você ainda me pede por algo dessa natureza, então você não entendeu nada do que escrevi. Voltemos à Filosofia.”




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