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Cocô de grilo e crocodilo

  • Foto do escritor: Vitor Lima
    Vitor Lima
  • 16 de jan.
  • 4 min de leitura

Minha madrasta tinha um ditado que repetia sempre, principalmente quando eu era adolescente e achava que sabia de tudo: "Não confunda cocô de grilo com crocodilo". Era a versão dela para aquele outro ditado, mais elegante mas menos engraçado, de não confundir alhos com bugalhos.


A sabedoria popular tem dessas: transforma em imagem cômica uma verdade filosófica séria. Porque o que ela estava dizendo, no fundo, é isto: as palavras importam. E quando você troca uma palavra por outra — ainda que pareçam próximas, ainda que ambas comecem com "c" e tenham sons parecidos — você não está apenas cometendo um erro de pronúncia. Você está mudando completamente o sentido do que está dizendo.


Lembrei disso outro dia ao ver um já conhecido vídeo do Ciro Gomes. Ele estava falando sobre o Big Bang e, em certo momento, disse algo como: "O Big Bang tem uma necessidade axiológica". Travei. Voltei o vídeo. Ouvi de novo. E pensei: ele quis dizer "ontológica", não "axiológica".


Pode parecer preciosismo. Pode parecer coisa de professor chato corrigindo vírgula. Mas não é. Porque trocar "ontologia" por "axiologia" não é como trocar "você" por "ocê". É como trocar "cocô de grilo" por "crocodilo". São coisas completamente diferentes.


Deixa eu explicar a confusão — e por que ela importa.


Ontologia é o estudo do ser. Vem do grego to on (o ser) + logía (estudo). É a parte da filosofia que pergunta: o que existe? Por que existe algo, e não nada? O que é real? O que significa "ser"? É a pergunta mais básica, mais radical, mais vertiginosa que um ser humano pode fazer. Kant, aliás, achava que essa pergunta era tão profunda que a razão humana não consegue respondê-la sem entrar em contradição. Dá um nó na cabeça que nem a política resolve.


Axiologia, por outro lado, é o estudo dos valores. Vem de áxios (valor, digno) + logía. É a parte da filosofia que pergunta: o que é bom? O que é belo? O que é justo? O que vale a pena? É o campo da ética e da estética. Importantíssimo, sem dúvida. Mas é outra conversa.


Quando Ciro diz que o Big Bang tem uma "necessidade axiológica", ele está — sem querer, imagino — dizendo que a origem do universo tem a ver com valores. Com bem e mal. Com o que é digno ou indigno. Mas não é disso que se trata. Perguntar sobre a origem do universo é perguntar por que existe algo ao invés de nada. É uma pergunta ontológica. É sobre o ser, não sobre o valor.


Pode parecer detalhe. Mas não é. Porque se você confunde ontologia com axiologia, você acaba achando que discutir a origem do universo é discutir moralidade. E aí você cai naquela armadilha clássica de achar que o Big Bang precisa ter um "propósito bom" ou que a existência do universo precisa "fazer sentido" em termos humanos. Mas o universo não nos deve satisfação moral. Ele simplesmente é. E tentar entender por que ele é — ou como ele veio a ser — é ontologia, não axiologia.


Agora, sei o que você está pensando: "Tá, mas isso não é só frescura acadêmica? Vocabulário técnico não atrapalha mais do que ajuda? Não seria melhor falar de um jeito que todo mundo entende?"


Boa pergunta. E eu entendo o incômodo. Porque a filosofia, de fato, tem um problema sério com o jargão. Tem gente que usa vocabulário técnico não para esclarecer, mas para impressionar. Para parecer mais inteligente do que é. Para criar uma barreira entre "quem sabe" e "quem não sabe". E isso é tudo, menos filosófico. Isso é vaidade travestida de erudição.


Mas aqui está o ponto: existe uma diferença entre jargão desnecessário e precisão conceitual.


Jargão desnecessário é quando você usa uma palavra difícil tendo uma palavra simples que diz a mesma coisa. É falar "epistemologia" quando você poderia falar "teoria do conhecimento". É dizer "hermenêutica" quando você quer dizer "interpretação". É usar palavrão grego para se exibir.


Mas precisão conceitual é outra coisa. É quando você usa uma palavra técnica porque ela carrega um significado específico que não dá para substituir sem perder algo importante. É quando você diz "ontologia" porque não está falando de valor, está falando de ser. É quando você diz "epoché" porque não está falando de qualquer dúvida, mas daquele gesto específico de suspender o juízo que os céticos praticavam.


E aqui está o problema: se você não tem o vocabulário, você não consegue fazer as distinções. E se você não faz as distinções, acaba confundindo tudo. Acaba achando que ontologia e axiologia são a mesma coisa. Acaba misturando cocô de grilo com crocodilo.


Pensa assim: imagine que você quer falar sobre música, mas só conhece a palavra "barulho". Você vai chamar tudo de barulho. Uma sinfonia de Beethoven? Barulho. Um funk carioca? Barulho. O canto de um pássaro? Barulho. Em certo sentido, não está errado. Mas você está perdendo nuances. Está empobrecendo a própria capacidade de perceber diferenças.


Agora imagine que você aprende as palavras: melodia, harmonia, ritmo, timbre, dissonância, cadência. De repente, você consegue ouvir coisas que antes não ouvia. Não porque a música mudou, mas porque você tem ferramentas conceituais para identificar o que está acontecendo. O vocabulário técnico não te afasta da música. Te aproxima dela de um jeito mais rico.


É a mesma coisa com filosofia. Aprender vocabulário técnico não é decorar palavrões para lacrar em debate de internet. É adquirir ferramentas de pensamento. É poder fazer distinções que, sem essas palavras, você nem saberia que existem.


Então, sim: o vocabulário técnico pode atrapalhar quando é usado de má-fé, quando serve apenas para excluir, quando vira fetiche. Mas quando usado com honestidade, ele liberta. Porque te dá mais lentes para ver o mundo. 


E olha, não estou dizendo que Ciro Gomes é um mau filósofo por ter trocado uma palavra. Longe disso. Todo mundo comete esse tipo de deslize. Eu já devo ter cometido mil. O que importa não é apontar o erro com prepotência, mas usar o erro como oportunidade de aprender — e de lembrar que as palavras importam.


Porque quando você chama de "axiológico" o que é "ontológico", você não está apenas errando um termo técnico. Você está mudando o tipo de pergunta que está fazendo. E em Filosofia mudar a pergunta, às vezes, é mudar tudo.


La trahison des images René Magritte - 1929
La trahison des images René Magritte - 1929

 
 
 

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