Dois modos de lidar com o desespero
- Vitor Lima

- 17 de jul. de 2025
- 4 min de leitura
O filósofo Albert Camus afirmou que o espanto fundamental – o thaumázein, proposto por Platão e Aristóteles – é a própria existência. Nesse sentido, a única questão realmente séria é esta: por que não tirar a própria vida?
Pode parecer coisa de gente desesperada, no sentido comum da palavra. Mas não se apresse, leitor. Entender as nuances do significado da palavra “desespero” é chave para alargar seu pensamento. E é esta a nossa intenção. Acompanhe a explicação.
Para entender um autor, útil é saber contra quem se posiciona. Nesse caso específico, podemos contrapor o argelino Camus ao dinamarquês Kierkegaard. Foi este último quem primeiro se celebrizou por tematizar o desespero.
Não se trata, em Kierkegaard, de um estado de profunda tristeza necessariamente. Uma pessoa desesperada é tão só uma pessoa que não cultiva esperança – e uma esperança específica. Trata-se de desespero no sentido etimológico: des-, “negação”, -espero, “esperança”, “expectativa de algo porvir”. O porvir é a transcendência, e a transcendência é Deus. Desesperar-se é perceber-se ausente da possibilidade de estar junto de Deus no além deste mundo. A vida desesperada seria a vida inautêntica.
A vida autêntica, ao contrário, almeja estar na presença de Deus – nem que seja pelo salto da fé, para além de qualquer explicação racional. Almejar estar na presença de um ser infinito, diante do qual é impossível haver ilusões e fingimentos, é a única condição para viver autenticamente. Só assim o indivíduo é completamente desnudado.
Quem nega essa via, para Kierkegaard, vive no porão da própria existência:
“No caso de alguém imaginar uma casa, consistindo em porão, térreo e premier étage, ocupada de tal modo ou, antes, de tal modo arrumada, que fora planejada para uma distinção de posição entre os moradores dos diferentes pisos; e no caso de que alguém procedesse a uma comparação entre essa casa e o que significa ser um homem – então, desafortunadamente, a lamentável e ridícula condição da maioria dos homens é a de que em sua própria casa preferem viver no porão. A síntese alma-corpo presente em todo homem é planejada com vistas a tornar-se espírito, esta a sua estrutura; mas o homem prefere permanecer no porão, isto é, nos limites do sensual. E não só prefere viver no porão; não, a isso ele ama em tal grau que se zanga quando se lhe propõe que ocupe o primeiro andar, o piano nobile, que permanece vago à sua disposição – porque afinal ele se encontra em sua própria casa. (O desespero humano, p. 176)
Para Camus, por outro lado, o porão não é tão escuro e desalentador quanto pinta Kierkegaard. É no primeiro andar que mora o perigo. Trata-se de um piso que foi prometido e nunca foi entregue. Ao passar uma vida inteira, esperando a sua construção, o indivíduo se esquece de viver a vida presente, seja no térreo, seja no porão.
Em termos menos metafóricos, para Camus, a esperança é desastrosa para os humanos na medida em que os leva a uma postura fundamental: a minimização do valor desta vida, exceto como preparação para uma vida além.
Camus baseia-se na discussão de Nietzsche sobre o mito da Caixa de Pandora: todos os males da humanidade, incluindo pragas e doenças, foram soltos no mundo por Zeus, mas o mal restante, a esperança, é mantido escondido na caixa, guardado como um tesouro. Mas por que a esperança é um mal?
Nietzsche explica que os humanos passaram a ver a esperança como seu maior bem, enquanto Zeus, conhecendo melhor, considerou-a a maior fonte de problemas. É, afinal, a razão pela qual os humanos se deixam atormentar - porque sofrem da antecipação de uma recompensa final.
Se não a esperança, qual o caminho para a vida autêntica, então?
Camus defende viver uma vida dos sentidos, intensamente, aqui e agora, no presente. Isso implica abandonar toda a esperança de uma vida após a morte. Eis a afirmação que resume o posicionamento de Camus em um de seus primeiros livros, Núpcias: “O mundo é belo e lá fora não há salvação”.
Somente aceitando a morte e negando qualquer mundo além deste é que se aprecia mais intensamente não apenas o lado físico da vida, mas também seu lado afetivo e interpessoal:
“Sentir os laços com uma terra, o amor por certos homens, saber que sempre há um lugar onde o coração pode encontrar descanso — já são muitas certezas para a vida de um homem” (Núpcias, p. 90).
O desespero, então, é a ausência de esperança. Essa ausência, contudo, apresenta dupla interpretação.
Para Kierkegaard, trata-se da vida inautêntica, porque o indivíduo se afasta da única condição em que pode estar completamente desnudo, fora de fingimentos e ilusões: a transcendência rumo ao infinito.
Para Camus, trata-se da vida autêntica, posto que é só nela que o indivíduo compreende e abraça sua situação: não há outra vida, a não ser esta, de modo a ser preciso viver aqui e agora, do modo mais intenso que se puder.
Eis os dois modos de lidar com o desespero. Qual é o seu?
Vitor Lima
Seu Professor de Filosofia de hoje e de sempre
P.S. Ajude mais alguém a lidar com o desespero – apresente este texto para quem ainda não a conhece.




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